segunda-feira, 25 de junho de 2007

URSO AZUL COM ARCO-ÍRIS NA BARRIGA E PORQUINHA COR-DE-ROSA: Brinquedos selecionados para doação do dia 28 de junho


Escolher, desde o início da idéia, tendo sido uma tarefa difícil. Para começar, resolvi partir das lembranças mais antigas. Tão antigas que são lembranças desde sempre. O urso azul com arco-íris na barriga costumava ter a franja bem lisa, escorrida sobre a testa. Tinha um pente da mesma cor, que eu usava para desembaraçar seus cabelos. Costumava ficar em cima da cama, em uma fila na frente das almofadas. Ao seu lado, ficava a porquinha cor-de-rosa, cuja franja eu também costumava pentear. No seu babado há uma nuvem emborrachada e atrás dela um sol pintado. Bom dia pode-se ler e se apertar na nuvem faz um barulhinho.

Bruxinha Vermelha: Brinquedos selecionados para doação do dia 28 de junho










Bruxinha Vermelha
e sem vergonha.

Caiu na minha mão em viagem à Áustria,
Quando pedi à mãe para comprá-la,
Num gesto de audácia.

Eu, com meus 13 ou 14 anos,
comprando uma das minhas últimas bonecas.

Ainda hoje fico vermelha à toa.

Possivelmente sentirei a bochecha rubra
Ao entregar para um outro desconhecido esta boneca
que traz à tona uma série de recordações
Do trânsito entre infância e adolescência.

A despedida já começou.

Desejo agora preparar as malas para outra viagem.

COELHO BRANCO: Brinquedos selecionados para doação do dia 28 de junho













O Coelho Branco,
Não me recordo exatamente quando o ganhei,
Por anos a fio passou sentado sobre a prateleira branca do quarto.
Não por descaso, ou por desgosto, mas por precaução.

É um daqueles objetos do qual se tem apego,
Sem precisar de maiores explicações.

Não recordo se algum dia tenha conseguido brincar com ele,
Mas ele sempre teve seu lugar de destaque na prateleira.

Lembro-me de passar momentos imprecisos
Ao tentar pentear-lhe o bigote,
Agora olhando a fotografia,
sinto a mesma vontade de realinhar
Essas suas linhas marrom-escuras.

Já não me parece tão branco como antes.

Após voltas e voltas,
Dou início a dolorosa despedida,
Espelhada nos olhos incandescentes desse objeto,
Que é parte contemplativa da minha infância.

Meu quarto era todo branco.

BABY SOL: Brinquedos selecionados para doação do dia 28 de junho










Tempo perdido e desconexo,
Um fluxo contínuo
Transpassado pela memória.

De grão em grão exterior e interior confundem-se,
É a poeira que faz nublar os olhos
E que escorre nas lágrimas, ao emergir das entranhas,
Revirando-se na brisa fria que sopra.

Será que expeli os últimos suspiros cinzentos?
Para onde irá toda essa poeira?

Ao tocar toda a poeira depositada sobre o corpo dourado da boneca Baby Sol,
Sinto a leveza do tempo sobre a pele fria.
Dirijo-me à janela e posso sentir o ar gelado,
Como se pouco restasse daqueles dias quentes
Em que me expunha ao sol junto a ela,
Esperando ansiosa pela drástica mudança de cor
De sua estranha pele.

Eu continuava branca, feito neve,
Mas ela transformava-se num piscar de olhos.

Os seus olhos azuis vibrantes agora estão cheios de poeira,
Sua pele não metamorfoseia-se mais tão intensamente.

O biquini continua tal e qual sua origem,
Salvo por (d)efeitos espichados,
Trazendo-me um calor suave.

Assim inicio minha despedida.